Uma tarde por Conímbriga

As viagens no tempo existem, eu fiz uma em meados de fevereiro, viajei mais de 2.000 anos no passado, ao alto império romano; fui visitar a cidade de Conímbriga situada na província romana de Lusitânia.

Conímbriga

Conímbriga foi uma antiga cidade romana situada na estrada militar que ia desde Olissipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga). Pertencia administrativamente ao Conventus Scallabitanus da província romana de Lusitânia.

Conímbriga tem a sua origem num castro céltico da tribo dos cónios, foi ocupada pelos romanos nas campanhas de Decimo Junio Bruto, em 139 a. E. C. Durante o governo do Imperador César Augusto (final do século I a. E.C. e início do século I E.C), a cidade passou por grandes obras de urbanização com a construção dos banhos públicos e do fórum.

Conímbriga
Escavação dos banhos públicos; zona da caldeira da água quente.

 

Conímbriga
Banhos públicos: duas zonas diferentes, ao fundo uma segunda piscina.

 

No final do século IV, no contexto do declínio do Império Romano, foi construída uma muralha de defesa urbana com cerca de 1.500 metros de extensão, possivelmente para substituir e reforçar a muralha antiga, da época de Augusto.

 

Conímbriga
Parte da antiga muralha de Augusto.

Em 468 E. C. os suevos tomaram a cidade e destruíram parte da muralha. A partir daí, Conímbriga começou a abandonar-se, acabando por perder o seu estatuto de sé episcopal em benefício de Aeminium (Coimbra), que apresentava melhores condições de defesa e sobrevivência. Os moradores que ficaram deslocaram-se mais ao norte e fundaram Condeixa-a-Nova.

Conímbriga é o sítio arqueológico romano mais estudado em Portugal. Localizado em Condeixa-a-Nova, distrito de Coimbra, é o um dos lugares mais procurados tanto por estudantes como por professores. Entre os vários arqueólogos que se debruçaram sobre esta cidade romana, destaca-se o nome de Virgílio Correia Pinto da Fonseca, que fez um estudo aprofundado desta urbe. Entre 1930 e 1944 (ano da sua morte) escavou toda a zona adjacente à parede oriental, descobrindo, fora das muralhas, alguns banhos públicos e três casas, entre as quais se destacam a chamada "Casa dos Repuxos", com uma área de 569 m² pavimentada com mosaicos e um jardim central onde foi preservado todo um sistema de canalização.

Na área interna da parede, a escavação revelou uma basílica cristã primitiva e uma luxuosa casa com banhos privados, a "Casa de Cantalber".

Conímbriga
A casa de Cantalber: uma residencia privada com 3000 m2. Uma das maiores domus de Conímbriga. Podemos apreciar o seu peristilo em volta do qual estavam organizadas as diferentes divisões da vivenda. Esta domus contava com um salão de banhos privado.

 

Peristilo da Casa dos Repuxos.
A "Casa dos Repuxos". Construída nos finais do século I a. E.C. Sabe-se que lhe foi aumentado um andar no início do século I da nossa Era. O seu sistema de repuxos pertence à primeira fase da construção.

 

Um dos dois triclinium (sala de jantar) da "Casa dos Repuxos". Os mosaicos do chão representam cenas de caça. É provável que este fosse o triclinium de inverno.

 

Vista geral das traseiras da "Casa dos Repuxos".

Foi também trazido à superfície um fórum augustano demolido na época dos Flávios, momento em que a cidade recebeu o estatuto de município, para dar origem a um novo e maior fórum. Também foram escavados alguns banhos públicos construídos em época do imperador César Augusto. Dentro dessa vasta área, foi ainda escavada uma zona residencial do período Claudiano, constituída por Insulae que, muito provavelmente, seriam ocupadas pela classe média ligada ao comércio. A partir de uma albufeira localizada em Alcabideque, a água era encaminhada para Conímbriga por meio de um aqueduto.

 

Zona das "Insulae" (predios de apartamentos).

 

Piscina pública para a prática da natação.

 

As ruínas encontram-se muito bem conservadas, podendo apreciar-se magníficos azulejos com as suas cores originais e distinguir, nas incríveis vilas aristocráticas, as várias divisões que as constituíam. Não é difícil de imaginar aquele lugar vivo. Com as suas gentes circulando pelas calçadas, entrando e saindo dos vários comércios que circundavam o fórum; desfrutando dos banhos públicos, dos quais se distinguem perfeitamente as duas áreas: uma  para os homens e a outra para as mulheres. Na “Casa dos Repuxos” podemos ativar as fontes e ouvir o que os seus afortunados donos ouviam há 2000 anos atrás ao caminhar pelo seu magnífico peristilo: o ruído da água ao sair dos repuxos escondidos entre os canteiros de flores.

 

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No dia 14 de fevereiro de 2020 viajei à Conímbriga do século I, foi um perfeito Dia de São Valentim para uma apaixonada pelo mundo romano como eu.

Conímbriga
Casa da suástica: este era um símbolo de sorte e proteção para os romanos e grande parte dos povos indo-europeus.

 

Anabela J. Fernández

 

 

Fontes:

- Museu arqueológico de Conímbriga.

- Página oficial do sitio arqueológico de Conímbriga.

 

Fotos:

Propriedade da autora (Anabela J. Fernández)